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Deus

Deus foi morto pela ciência.

Aí a ciência assumiu o papel de deus como entidade toda poderosa capaz de entregar as respostas e dar conforto àqueles que o cultuam.

Meu deus é o caos, a falta de respostas, a garantia de incertezas, ou a (não-)garantia das mesmas, a capacidade de viver sem o conforto das respostas, o anti-Deus.

Mas viver sem a chama que estimula a busca por respostas é anti-humano, logo viver sem um Deus é anti-humano.

Meu deus é o caos, e eu confio que ele me dará as respostas. Eu não posso controlar os eventos com os quais me deparo, mas eu sempre posso controlar minha reação diante dos mesmos.

A minha forma de cultuar o caos é interromper a busca por respostas como minha reação, entregando a ele parte de minha humanidade, e eu o cultuo às vezes.

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Anarcocapitalismo não existe

Nesse post pretendo criticar o anarcocapitalismo. Porém pretendo o fazer de uma forma menos burra do que vemos por aí. Espero que essa crítica sirva para que você, que critica o anarcocapitalismo de forma burra, perceba que tem mais semelhanças com o seu objeto de crítica do que imagina. Espero também, que o anarcocapitalista evangelizador reflita o necessário para tornar-se tão humildade quanto ele o é na economia. E, caso você seja um desses que não os suporta, recomendo que escute-os mais, pois eles têm mais a ensinar sobre o mundo do que você imagina.

Quando eu menciono que anarcocapitalismo não existe no título desse post, o que quero dizer é que ele é uma ideia, uma invenção humana, que ainda não foi transportada para a realidade, e, assim sendo, você não pode afirmar que existe. Eu não estou tentando argumentar que isso nunca vá existir ou refutar seus fundamentos.

Por outro lado, o ato de planejar em si uma sociedade é de uma arrogância a deixar algumas pessoas perplexas, e é isso também que fazem os burocratas da união europeia. Para o leigo do assunto, a arrogância do anarcocapitalista pode aparentar ser maior do que ela é, mas o anarcocapitalista crente está acostumado com as armadilhas de arrogância devido a seus estudos de economia. O problema do anarcocapitalista crente é que ele quer forçar um modelo de sociedade onde esse modelo não se aplica. Ele admite a impossibilidade de se imaginar como seria uma sociedade livre, porém condena as estruturas que fazem a atual sociedade funcionar (não que ela seja muito boa). Ele almeja destruir os pilares da atual sociedade e esperar para ver como um bando de animais iria interagir em tal lugar.

Creio que a arrogância do anarcocapitalista seja alimentada pelo fato do mesmo ser bombardeado de ataques a espantalho o dia inteiro. Ele fica condicionado a repetir os mesmos argumentos em uma atitude de auto-afirmação que por fim acabam se transformando em arrogância que ele próprio não vê. Os ataques burros a o ser humano ser bom ou mal cegaram os anarcocapitalistas.

Os anarcocapitalistas mais sensatos são aqueles que querem criar uma “sociedade paralela”, e não mudar a atual. Com o passar do tempo, creio que isso pode funcionar bem melhor do que um “gradualismo” de “evoluir” uma sociedade de forma “conduzida”.

Eles próprios entendem que leis são descobertas. Leis não são votadas. Leis são descobertas. Pense nas leis da física como exemplo. Pode também haver leis que dirijam como a sociedade funciona. E o ponto é que, se você não conhece essas leis, você não pode dizer que o estado é natural ou não. E esse é o ponto da arrogância que os mata. Talvez o estado seja natural. Talvez o estado seja uma lei natural da sociedade e sempre acabe se formando. Assim como, talvez, ele seja natural dado que a informação não seja barata, que é a especulação de que o mundo esteja pronto para ver uma região anarcocapitalista. Mas querer lutar contra as leis que regem a sociedade e impor um modelo, não vai funcionar. Essa é uma crítica às vertentes jusnaturalistas/jusracionalistas do anarcocapitalismo. O anarcocapitalista utilitarista está em uma situação um pouco diferente.

Conflitos

Conflitos são minha atual obsessão. Sempre foram e só há pouco percebo, com cada vez mais certeza. Mesmo no ato de escutar alguém você se engaja em um conflito. A decisão entre desencorajar um comportamento delirante deve ser firme, mas ao mesmo tempo é a mesma energia que alimenta sua própria postura em um conflito onde você assume a postura arrogante de achar que sabe como as coisas funcionam, que seria a posição que você está tentando repreender. Qualquer posicionamento que você assume é nutrir sua própria identidade, e somente conflitos permitem que você exista, que você se defina.

Ao informar o que deve ser feito, você implicitamente também está informando o que não deve ser feito. Mais uma vez há essa existência interna de conflito. Você possui essa necessidade para sequer existir. Eu não mais vejo a pergunta “por que ainda usam esses livros obsoletos?” da forma como a via antes.

Minhas dúvidas a respeito começaram quando eu tentei preparar um material de ensino sobre como programar em Rust, estruturar o código usando uma hierarquia diferente da bem consolidada OO. Foi uma tarefa difícil, e durante a fase de pesquisa, a única coisa próxima que eu possa chamar de guia foi um comentário do Alan Watts:

And they’re always arguing with each other. And what they don’t realize is […] neither one can take his position without the other person because you wouldn’t know what you’re advocating [..]. And that’s the answer to philosophy. You see? I’m a philosopher and I’m not gonna argue very much because if you don’t argue with me I don’t know what I think.

Acabei não conseguindo fazer bem o que eu planejava inicialmente (ensinar Rust) e foquei na diferença, assim como são todos os únicos materiais que vi a respeito (que, à curiosidade, eram sobre propostas alternativas dentro de uma mesma linguagem, C++). Espero que esses conflitos se prolonguem e assim poderemos nos identificar melhor.

Sem título

Coelho que encontrei por aí

Gostei desse coelho, quero deixar ele famoso.

Aventuras com o Emacs: recuperando arquivos

Dia 6 de agosto, em algum momento próximo a 20:00, o meu editor de textos está aberto. Há rascunhos de ideias que eu havia anotado ao longo do dia. Uso o ambiente/shell Enlightenment para prover alguma interface gráfica para o meu sistema Linux, ambiente que já falhou várias vezes comigo. Não foi diferente dessa vez, o Enlightenment parou, não estava me servindo mais. Mas eu quero meus arquivos de volta, assim começa a história de como perdi algumas horas de minha vida. “Eu quero” é o que basta para fazer isso acontecer.

Primeiro passo, eu utilizo a interface não-gráfica do Linux, um tty diferente. Eu não posso usar a interface gráfica agora, logo vou ter que me acostumar a usar muitos aplicativos simultaneamente (usar o navegador web via TUI enquanto leio o manual de como usá-lo no lado direito, etc). Eu conhecia o tmux, mas não estava habituado a usá-lo, e isso mudou. Passei algumas horas me acostumando a usar o tmux enquanto usava os outros aplicativos. Usei o gdb para interromper o fluxo normal de execução do Enlightenment aberto e chamar a função ecore_app_restart, dica que havia aprendido na lista de email do Enlightenment.

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Eu estava perdendo o preconceito de controlar o posicionamento das “janelas” utilizando apenas o teclado. Entretanto, a dica do gdb para reiniciar o Enlightenment, que já me ajudou no passado algumas vezes, dessa vez não teve efeito.

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Já são 2:00 no dia seguinte e eu ainda estou pesquisando, na internet, algo que pudesse me ajudar. O Emacs estava aberto e na memória RAM do computador eu poderia recuperar o que eu havia digitado. Foi então que, lendo um arquivo que dava instruções de como depurar o Emacs, eu percebo a informação que vai me ajudar.

Mais uns vinte minutos e eu já tinha salvo o estado de execução no qual o Emacs se encontrava, o core dump file. Hora de voltar a ser produtivo, voltarei a esse problema outro dia.

20 de agosto

O dia que eu retorno ao problema. Passei dias demais sem atualizar meu sistema com receio de distanciá-lo demais do ambiente no qual o Emacs estava funcionando. Hora de ler novamente as instruções do arquivo DEBUG que encontrei no repositório do Emacs. Sigo as instruções e não funciona, meu binário não possui os símbolos de depuração. Considerando a possibilidade de que não fosse funcionar, re-gero o binário do Emacs de forma que os símbolos de depuração fossem salvos no sistema de arquivos.

Hora da verdade. Tento novamente e vejo o esperado warning:

warning: core file may not match specified executable file.

Prossigo de qualquer forma, e, para minha satisfação, recupero as informações que eu queria.

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Trabalho feito, hora de atualizar o sistema. Acho que se fosse no Windows, eu não teria nenhuma chance. De qualquer forma, acho que está na hora de encontrar um substituto para o Enlightenment.

Escolher se aprisionar é uma escolha?

Existe essa discussão (filosófica?) em comunidades de software livre sobre o caso de você escolher abrir mão de liberdade ser uma escolha ou não, e, assim, tentar ridicularizar todo o argumento de liberdade por trás desse movimento, pois, segundo essa lógica, todo software era livre. Eu nunca me interessei por tais discussões, pois quando eram feitas por trolls, eu não me irritava, nem perdia tempo tentando responder. Quando eram feitas genuinamente pela busca de um exercício de filosofia, nenhum argumento que despertasse o meu interesse era apresentado, e eu também não me envolvia em tais discussões. Recentemente, ao acaso, acabei pensando em algo que me fez enxergar o problema de outra forma e ter interesse na resposta (ou no debate).

A forma como eu achei uma forma de tornar essa discussão mais interessante foi misturando uma outra discussão que por si só já é bem grande, a discussão de identidade. Quando você sofre uma experiência, você muda. A questão é se essa mudança que aconteceu é grande o suficiente para considerar que você é uma pessoa diferente. A forma como eu relaciono esses dois debates são através da possibilidade de mudar de ideia.

Um exemplo para tal relação foi a situação que ocorreu com Frank Sinatra, que, segundo o podcast que escutei, fez um acordo com um cara para fazer parte da banda dele, e, segundo as regras do contrato, ele não poderia abandonar a banda, e, se o fizesse, deveria pagar 33% de todo o dinheiro que ele ganhasse durante o resto de sua vida como multa. Ele acabou mudando de ideia e largou a banda. A questão é, esse Frank Sinatra que assinou o contrato era o mesmo que saiu da banda? Se eles são pessoas diferentes, então o Frank do futuro teve sua liberdade reduzida por uma decisão do Frank do passado.

O exemplo anterior pode ter parecido um pouco absurdo, mas é bem válido que instituições criminosas usem de ameaças para lhe forçar a assinar esse tipo de contrato. E se você não pode anular o contrato provando (isso quando existe a possibilidade de você conseguir provar) que você só o assinou por conta de uma ameaça, você efetivamente teve sua liberdade reduzida e “escolher se aprisionar” nunca foi uma escolha.

Para desvirtuar a discussão ainda mais tentando fazer relação com temas distantes, você pode fazer analogia do comportamento que acabei de descrever com a sociedade que você ajuda a construir e entrega para seus filhos. Se eles nascem em um lugar onde a liberdade foi tirada, então quer dizer que em momento nenhum houve uma perda de liberdade, pois na verdade seus pais que “escolheram” abrir mão da liberdade?

Bom, é isso, não conclui nada, mas não seria assim que discussões filosóficas acontecem, onde a discussão é mais importante que a resposta?

Tenha um ponto a apresentar, não seja um macaco

Na computação não é incomum o desprezo a coisas primitivas. Primitivos, primatas, macacos… Assim, uma forma de ofender, no meio da computação, é usar a palavra macaco. E quase nunca é uma ofensa de verdade, apenas uma brincadeira. No YouTube, por exemplo, quando o site falha, uma mensagem de “uma equipe de macacos treinados está cuidando do problema” é apresentada. Pois bem, parece que está começando a ganhar popularidade esse jeito de “argumentar” onde você imita um macaco, faz as pessoas rirem, e ganha o debate. Eu tenho uma mensagem que eu gostaria de deixar por aqui.

A mensagem que eu quero deixar é que se você tentar conversar comigo usando essa forma de comunicação de macaco, eu vou ficar irritado. Se seu objetivo for me irritar, parabéns, você conseguirá. E o motivo que me irrita é que eu não quero interagir com macacos, pois eu não tenho empatia nenhuma com estupidez. Agora, o resto desse pequeno texto é dedicado a explicar o que seria “se comunicar como macaco”.

Eu vi recentemente esse vídeo do Maurício Saldanha e fiquei surpreso com a forma de comunicação primitiva dele. Eu fiquei profundamente intrigado, me perguntando se ele achava que estava sendo legal, ou se ele realmente tinha a limitação de se “comunicar” daquela forma. Vejam por vocês mesmos:

Agora, preste atenção no instante 14:47, que merda é essa?! Você pode me explicar? Eu acho difícil de acreditar que um macaco desse está ficando popular. E a razão é que eu fico frustrado. Estou publicamente admitindo que fico frustrado (caso você queira chamar de “recalque”). E o motivo da frustração é que enfrento situações onde as pessoas destacam minha baixa capacidade comunicativa, mas o motivo de eu sofrer dessa baixa capacidade comunicativa é que, (1) ou eu não tenho nada a falar (ou sequer sei o quê falar), (2) ou eu estou tentando comunicar uma ideia mais complexa, nem que seja complexa somente para mim (diferente desse macaco primitivo do Maurício Saldanha).

Olhem de novo esse vídeo! Que merda se passa na cabeça desse macaco? Eu fico puto com esse comportamento ser realizado por alguém da mesma espécie que eu, e que, para tornar as coisas melhores, faz parte da mesma cultura na qual estou inserido (a cultura brasileira). Isso me deixa profundamente frustrado. Se você estiver tentando entender o quanto eu fico irritado (ou “cheio de recalque”, a depender do ponto de vista), imagine o Felipe Neto encenando aqueles vídeos dele lá.

Agora, atuação, e não essa merda incompreensível do Maurício Saldanha, é uma arte, é belo, é algo a se apreciar. Recentemente me deparei com um vídeo do Jim Carrey e grande parte da mensagem que ele estava comunicando, uma parte crucial para o efeito que ela tinha, eram esses “gestos de macacos”. O vídeo era o Unnatural Act:

Agora, a diferença que torna o Maurício Saldanha um babaca estúpido macaco primitivo incompreensível (note como a internet permeia o ódio e me faz xingar um estranho aleatório que nem conheço) e o Jim Carrey um gênio ao fazer “a mesma coisa” é bem simples, então guarde bem com você: o Jim Carrey tem um ponto, não depende só de expressões baratas inseridas aleatoriamente para tentar ridicularizar o ser de opinião contrária.

E para terminar, quero deixar uma dica aqui. Se você estiver precisando de um refrão para uma música punk, usa o refrão “macacos! primatas! primitivos!”. Eu vou ficar contente só com uma menção da ideia original e tal. E também vou escutar a música toda vez que precisar amenizar o ódio que essa comunicação de macaco a qual sou exposto causa em mim.

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