Archive | janeiro 2017

Anarcocapitalismo não existe

Nesse post pretendo criticar o anarcocapitalismo. Porém pretendo o fazer de uma forma menos burra do que vemos por aí. Espero que essa crítica sirva para que você, que critica o anarcocapitalismo de forma burra, perceba que tem mais semelhanças com o seu objeto de crítica do que imagina. Espero também, que o anarcocapitalista evangelizador reflita o necessário para tornar-se tão humildade quanto ele o é na economia. E, caso você seja um desses que não os suporta, recomendo que escute-os mais, pois eles têm mais a ensinar sobre o mundo do que você imagina.

Quando eu menciono que anarcocapitalismo não existe no título desse post, o que quero dizer é que ele é uma ideia, uma invenção humana, que ainda não foi transportada para a realidade, e, assim sendo, você não pode afirmar que existe. Eu não estou tentando argumentar que isso nunca vá existir ou refutar seus fundamentos.

Por outro lado, o ato de planejar em si uma sociedade é de uma arrogância a deixar algumas pessoas perplexas, e é isso também que fazem os burocratas da união europeia. Para o leigo do assunto, a arrogância do anarcocapitalista pode aparentar ser maior do que ela é, mas o anarcocapitalista crente está acostumado com as armadilhas de arrogância devido a seus estudos de economia. O problema do anarcocapitalista crente é que ele quer forçar um modelo de sociedade onde esse modelo não se aplica. Ele admite a impossibilidade de se imaginar como seria uma sociedade livre, porém condena as estruturas que fazem a atual sociedade funcionar (não que ela seja muito boa). Ele almeja destruir os pilares da atual sociedade e esperar para ver como um bando de animais iria interagir em tal lugar.

Creio que a arrogância do anarcocapitalista seja alimentada pelo fato do mesmo ser bombardeado de ataques a espantalho o dia inteiro. Ele fica condicionado a repetir os mesmos argumentos em uma atitude de auto-afirmação que por fim acabam se transformando em arrogância que ele próprio não vê. Os ataques burros a o ser humano ser bom ou mal cegaram os anarcocapitalistas.

Os anarcocapitalistas mais sensatos são aqueles que querem criar uma “sociedade paralela”, e não mudar a atual. Com o passar do tempo, creio que isso pode funcionar bem melhor do que um “gradualismo” de “evoluir” uma sociedade de forma “conduzida”.

Eles próprios entendem que leis são descobertas. Leis não são votadas. Leis são descobertas. Pense nas leis da física como exemplo. Pode também haver leis que dirijam como a sociedade funciona. E o ponto é que, se você não conhece essas leis, você não pode dizer que o estado é natural ou não. E esse é o ponto da arrogância que os mata. Talvez o estado seja natural. Talvez o estado seja uma lei natural da sociedade e sempre acabe se formando. Assim como, talvez, ele seja natural dado que a informação não seja barata, que é a especulação de que o mundo esteja pronto para ver uma região anarcocapitalista. Mas querer lutar contra as leis que regem a sociedade e impor um modelo, não vai funcionar. Essa é uma crítica às vertentes jusnaturalistas/jusracionalistas do anarcocapitalismo. O anarcocapitalista utilitarista está em uma situação um pouco diferente.

Conflitos

Conflitos são minha atual obsessão. Sempre foram e só há pouco percebo, com cada vez mais certeza. Mesmo no ato de escutar alguém você se engaja em um conflito. A decisão entre desencorajar um comportamento delirante deve ser firme, mas ao mesmo tempo é a mesma energia que alimenta sua própria postura em um conflito onde você assume a postura arrogante de achar que sabe como as coisas funcionam, que seria a posição que você está tentando repreender. Qualquer posicionamento que você assume é nutrir sua própria identidade, e somente conflitos permitem que você exista, que você se defina.

Ao informar o que deve ser feito, você implicitamente também está informando o que não deve ser feito. Mais uma vez há essa existência interna de conflito. Você possui essa necessidade para sequer existir. Eu não mais vejo a pergunta “por que ainda usam esses livros obsoletos?” da forma como a via antes.

Minhas dúvidas a respeito começaram quando eu tentei preparar um material de ensino sobre como programar em Rust, estruturar o código usando uma hierarquia diferente da bem consolidada OO. Foi uma tarefa difícil, e durante a fase de pesquisa, a única coisa próxima que eu possa chamar de guia foi um comentário do Alan Watts:

And they’re always arguing with each other. And what they don’t realize is […] neither one can take his position without the other person because you wouldn’t know what you’re advocating [..]. And that’s the answer to philosophy. You see? I’m a philosopher and I’m not gonna argue very much because if you don’t argue with me I don’t know what I think.

Acabei não conseguindo fazer bem o que eu planejava inicialmente (ensinar Rust) e foquei na diferença, assim como são todos os únicos materiais que vi a respeito (que, à curiosidade, eram sobre propostas alternativas dentro de uma mesma linguagem, C++). Espero que esses conflitos se prolonguem e assim poderemos nos identificar melhor.

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