Análise honesta do OpenPandora

Pandora é um console portátil cuja ideia nasceu em uns fóruns, após discussões sobre “como seria o console perfeito?”, onde cada um palpitava o que deveria haver. O projeto se tornou realidade e eu tive acesso ao console por bastante tempo. Nesse texto faço uma análise do console.

Pandora1ghz

Hardware

Nubs/analógicos

A qualidade dos analógicos é boa e adequada para um portátil (ocupam pouco espaço, mas não causam fadiga) e também possuem boa sensibilidade, mas infelizmente a funcionalidade de auto-calibragem dos mesmos (controlada por hardware e provavelmente imutável) é muito irritante. Ainda não perdi em nenhum jogo por causa disso, mas quando a calibração dá errado, você precisa fazer a “dancinha dos nubs” para eles voltarem ao normal e isso significa fugir do inimigo mais próximo em um jogo de ação até que os controles voltem ao normal. Mesmo com esse defeito, a presença dos nubs é um fator positivo e eu sentiria falta caso eles fossem removidos.

Apesar de seus problemas, os nubs são flexíveis, podendo ser utilizados como mouse ou como botões do mouse, dispensando muitas vezes o uso da touchscreen.

Meu conselho é que você prefira depender dos nubs para garantir precisão de ângulo (direção a ser apontada, por exemplo), do que depender deles para garantir precisão de intensidade (o módulo do vetor, intensidade da força, …).

Botões de jogo

O Pandora foi criado como um sistema para emular jogos e possui muitos dos clássicos botões (4 botões frontais, 2 botões de ombro, um direcional, …).

A qualidade dos botões é excelente. Após muitas e muitas horas de jogo, nunca aconteceu de algum botão “travar”/”emperrar” ou coisa do tipo comigo. E o direcional é excelente também, sendo fácil até de executar aqueles sequências “meia-lua etc”.

Touchscreen

A touchscreen é resistiva, o que pode ser chato para algumas pessoas. Quando eu coloquei uma película protetora, a precisão diminuiu nos cantos da tela e ficou difícil jogar jogos como The Legend of Zelda: Spirit Tracks.

Porta USB

O Pandora tem duas portas USB (uma porta USB-A e uma porta mini-AB OTG). Além da praticidade de poder usar hub, teclado mouse, hd externo e outros, você pode carregar via USB. Você pode até plugar seu robô feito com Arduino e deixar o Pandora com o seu poderoso processador de 1GHz executar os algoritmos mais custosos.

O motivo de eu ter reservado uma parte só para USB é que, no Pandora, ela encontra usos mais inusitados. Há, por exemplo, o software Master Control, que pode ser usado para fazer o Pandora funcionar como teclado, mouse e gamepad. Eu pretendia até fazer interfaces gráficas para auxiliar em fazer o Pandora funcionar como uma placa de som externa e como um leitor de CD/DVD virtual, usando os módulos já existentes do kernel.

A parte chata é que o padrão mini USB caiu em desuso e é meio difícil encontrar cabos para esse padrão. A sorte é que alguns produtos famosos, tipo o PS3, ainda fazem uso de miniUSB.

Bateria

O que eu tenho a comentar sobre a bateria é que ela dura bastante. A bateria vai durar tanto que você vai passar da hora de dormir só para ter o prazer de descarregar ela. Ela dura tanto que tem usuários usando o Pandora para carregar seus smartphones que possuem uma bateria inferior.

Mas apesar de ser muito boa, parece que os desenvolvedores do Pandora não se contentam facilmente, pois fizeram com que a bateria seja facilmente substituída, assim você pode ter umas baterias reservas já carregadas para quando for passar por um apocalipse zumbi longos períodos sem energia.

Áudio

Talvez uma das partes menos importantes em um console (ainda mais em um console portátil), mas apesar disso o áudio do Pandora é muito bom. O áudio do Pandora foi o que me fez perceber que os meus headphones precisam de um amplificador para eu extrair seu potencial (que não é necessário caso eu o plugue no Pandora).

Diferente de escutar músicas em um de meus outros dispositivos, no Pandora as músicas não travam nunca (a velocidade dos leitores de cartão de memória são muito boas), mesmo quando escuto músicas em um formato que costuma ocupar mais espaço/bytes, como o formato FLAC. Esse ainda é outro diferencial, como o sistema é aberto, qualquer um pode adicionar suporte a novos formatos de arquivos. Além de mp3, você pode abrir Ogg Vorbis, FLAC, o recente Opus e um monte de arquivos (coisa que normalmente só posso apreciar num computador, bem menos portável que um Pandora).

Ainda comparando com outro dispositivo que possuo, no Pandora eu não costumo escutar interferência de som enquanto o sistema funciona. No Pandora o único momento onde há uma pequena interferência de áudio é enquanto ele está carregando na tomada (e nem sempre acontece, pois ele costuma carregar enquanto eu durmo). Já no meu outro dispositivo que não é o Pandora, costumo escutar uma barulho de áudio que não é da música enquanto copio grandes arquivos entre pastas e em outras situações não incomuns.

Fugindo do tópico qualidade e entrando no tópico flexibilidade, o Pandora possui microfone embutido, mas também suporta entrada e saída de som através de suas várias conexões (entrada P2 com suporte a microfone, porta de expansão ou mesmo uma placa de som USB externa). O único inconveniente é que os headsets suportados pela entrada P2 foram projetados para o padrão, mas a Apple “criou” seu padrão não-padrão que, entretanto, foi seguido pela maior parte das empresas e, assim, tornou-se o padrão.

Juntando tudo isso, o melhor dispositivo para escutar música que tenho acesso é esse portátil, mas não me considero competente o suficiente no assunto, então deixo um link para a avaliação dos freaks do head-fi. Eu os cito usando o nome “freaks”, pois certa vez me deparei com um artigo que caracteriza um pouco de como eles se divertem durante o tempo livre.

Wifi

Há muitos relatos entre os primeiros usuários do dispositivo sobre problemas com o uso de wifi no aparelho, mas vou limitar a análise ao dispositivo ao qual tenho acesso e o veredito é que hardware wifi do Pandora é bom o suficiente, mas um pouco obscuro. Acabei de baixar momentos atrás um PND de 1.32 GiB do repositório oficial a uma velocidade média de 100 KiB/s e máxima de 900 KiB/s sem ter problemas de reiniciar o download por quedas de conexão. Não sei se é bom o suficiente para jogar online.

Com suporte obscuro eu quis dizer que as opções do Pandora são um pouco escondidas. Além de uma bateria boa, há bastante customização no software para permitir que você possa jogar o dia todo. No meio dessas customizações, foram desabilitados muitas das formas de comunicação (bluetooth, wifi, USB host) que você não usa o tempo todo, afim de maximizar a vida da bateria do aparelho. Essas customizações podem desafiar a vida do novo usuário, mas felizmente há um menu simples e de rápido acesso na barra de tarefas para você (re-)habilitar os meios de comunicação do Pandora.

Um fato curioso que talvez enriqueça a análise é que quando uso o Android o sistema se conecta na rede wifi mais rápido.

Qualidade

A carcaça do Pandora é feita de um plástico resistente. O meu ex-Pandora resistiu a algumas quedas, porém sempre que eu ia abrí-lo para corrigir alguma coisa, os parafusos acabavam luindo e eu tinha que destruir a carcaça (frágil ao calor) e colocar outra. O meu amigo que corrigiu o botão de ombro criticou a forma que o botão de ombro foi projetado, argumentando que tudo que é soldado a placa, deveria necessitar de uma pancada muito bruta para sair.

Sistema operacional

O Pandora, assim como grande parte dos dispositivos portáteis (smartphones inclusos), usa um processador ARM. Normalmente esses dispositivos dispensam um cooler e conseguem fazer um melhor uso da bateria. Sendo assim, um sistema operacional que suporte ARM é necessário e no Pandora esse sistema é o GNU/Linux. O GNU/Linux também é usado no Android, mas com uma série de variações/limitações. Algumas variações do Android são úteis e até acabam encontrando o caminho de volta para o kernel do Linux enquanto outras são prematuras e provavelmente só continuarão a ser usadas para manter retrocompatibilidade.

Um alerta antes que você prossiga: Eu vou ser um pouco mais técnico nessa seção e meu objetivo não será comentar sobre alguns itens que o usuário considera importante como facilidade de uso, mas, ao invés, comentar o que tecnicamente é interessante no sistema (seria algo como comentar o Unix, que ninguém usa, mas influenciou a maior parte dos sistemas operacionais que encontramos com facilidade hoje).

O sistema operacional do Pandora é derivado do OpenEmbedded, uma distribuição GNU/Linux destinada a dispositivos embarcados. O sistema boota rápido, possui um kernel até recente (3.2) e uma série de modificações para suportar melhor o Pandora (um kernel customizado com drivers específicos) e para melhor suportar a comunidade do Pandora (ambiente de aplicativos que facilita a vida de usuários que só querem colocar um monte de emuladores e jogar).

Sobre o OpenEmbedded em si, o sistema é subdocumentado (ainda mais para um usuário como eu, acostumado com o ArchLinux, que possui excelente documentação), possui uma lista de emails pouco ativa (eu participo dela) e parece utilizar um monte de tecnologias antigas e específicas. Se o sistema fosse melhor documentado, seus defeitos seriam reduzidos, pois qualquer usuário poderia se guiar e modificar o sistema. Seu gerenciador de pacotes foi forkado de um projeto morto usado por projetos antigos. Para não ficar muito decepcionado, você pode imaginar esse sistema como um sistema Debian que já está estável e vai receber poucas atualizações durante seu tempo de vida (com a diferença que o Debian é pelo menos uma ordem de magnitude melhor).

Sobre a versão customizada pela comunidade do Pandora, posso afirmar que é melhor mantida e recebe atualizações com uma frequência satisfatória. Em cima do sistema OpenEmbedded, foi criado um novo sistema de pacotes adequado para partições FAT (que normalmente são usadas em cartões de memória, mas carecem de um sistema de permissões adequado para sistemas GNU/Linux), onde você joga arquivos PND e já pode executá-los a partir do menu do Pandora. Há até uma interface gráfica minimalista criada pelo time do Pandora para se adaptar aos botões destinados a jogos.

O sistema PND é o sistema usado para empacotar jogos para o Pandora. O sistema, do ponto de vista do usuário, é muito simples de usar. Você copia o arquivo PND para uma pasta específica no cartão de memória e o software estará disponível alguns segundos após o cartão de memória ser inserido. Os dados do aplicativo são armazenados numa pasta separada (que também fica no cartão de memória) e os arquivos PND ficam intactos, puros. Não há necessidade de jogar o arquivo e executar um instalador ou coisa do tipo. É plug’n’play.

Os únicos poucos softwares que tive de instalar sem usar o sistema de PND, consumindo espaço na NAND interna, foram uma versão diferente do driver de vídeo, um pacote de codecs e o aplicativo timidity.

Uma fraqueza do sistema PND é que ele não é muito seguro, em relação a como ele isola os aplicativos que dispõe do restante do sistema. O sistema é bem menos ambicioso do que o pessoal do GNOME está tentando fazer.

O repositório é recheado de aplicativos úteis e são até bem mantidos. Para uma plataforma de jogos, eu gosto bastante do Pandora, apesar de haver pessoas no fórum afirmando utilizá-lo por outros motivos.

Os drivers que mais dão problemas, interessantemente, são aqueles para os quais não há muita documentação ou código-fonte aberto e isso inclui os drivers de vídeo, wi-fi e alguns outros. Dentro desse sistema, eu não recomendo que você alimente qualquer esperança de algum dia ver suporte a Wayland.

Uma coisa interessante é que o sistema faz uso de mtd, ubi e UBIFS, onde a memória flash é exposta “diretamente”, em vez de tentar se passar por um disco magnético.

E caso você não goste do sistema operacional padrão, pode substituí-lo ou mesmo instalar algum em um cartão de memória. Até um port do Android para Pandora, que roda bem suave.

Emuladores/jogos

O principal uso do Pandora é jogos, então é justo que eu reserve uma parte da análise para comentar sobre seu poder para jogar.

Os emuladores de plataformas antigas (como NES, SNES e alguns outros que não me recordo agora) possuem uma interface bem similar, o que me faz acreditar que sejam variações de emuladores que já existiam antes, mas que algum programador adaptou para o Pandora. No caso desses emuladores, eles costumam funcionar muito bem e ter suporte a save state.

Há também os emuladores que possuem interfaces próprias. No caso do emulador de N64, por exemplo, é mais difícil para interagir com sua interface. Entretanto, o emulador de N64 recebeu bastante investimento humano para ter uma versão decente no Pandora. Eu consegui me divertir jogando o começo de The Legend of Zelda: Ocarina of Time.

Há o emulador de PS1, que é muito bom também, tem as funcionalidades necessárias (trocar de CD sem recarregar o jogo, gerenciamento de memory cards, …) e tem uma interface bem simples de usar.

Para plataformas mais recentes que N64, normalmente a performance do Pandora não é boa o suficiente, porém há o emulador de NDS, que é incrível e não peca em nada. O emulador de NDS até deixa você mandar o sinal de uma das telas do NDS para uma TV enquanto o conteúdo da tela inferior fica na tela sensível ao toque do próprio Pandora. O emulador de NDS permite até que você mostre somente uma das telas, divida horizontalmente ou verticalmente, mostre uma das telas com o dobro do tamanho da outra e várias outras opções.

Suporte

O principal suporte é fórum do Pandora, que é bem ativo e não costuma esconder informações do usuário e é frequentado por algumas pessoas bem inteligentes, além de muitos outros usuários interessados em ajudar. Há até algumas modificações que você encontra por lá, tipo como adicionar suporte a “rumble feedback” no Pandora. Além do fórum, há também o canal IRC, que costuma estar ativo, mas não tanto quanto o fórum.

bastante documentação que você pode encontrar na wiki e o sistema é bem aberto. Você pode até baixar os arquivos STL, útil em combinação com impressoras 3D.

Peças de reposição podem ser conseguidas na loja DragonBox.

Um problema sério, entretanto, são as dificuldades em contribuir patches para o sistema operacional. Caso tenha interesse, o usuário que você deve procurar é o notaz.

Fatality

Eu gostei bastante do dispositivo, no tempo em que ele passou comigo. Pretendo algum dia testar seu sucessor que já está em desenvolvimento, o DragonBox Pyra, principalmente porque agora não estou com nenhuma placa de som que seja digna dos meus fones de ouvido.

E uma dica minha é, que caso tenham interesse no produto, evitem qualquer negociação com um certo Craig.

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