Estilos de multitasking cooperativo, loop de eventos e programação assíncrona

introUm dos assuntos que mais me interessa em programação é programação assíncrona. Esse é um tema ao qual eu fui introduzido desde que comecei a brincar com Qt (framework para criar interfaces gráficas) lá por volta de 2010, mas com o tempo fui tendo experiências em vários “paradigmas” de programação assíncrona, passando, por exemplo, por Node.js e Boost.Asio. O tema muito me interessa e foi, por exemplo, o motivador para eu estudar sistemas operacionais e arquitetura de computadores.

Esse é um trabalho que eu tive a ideia de fazer já faz muito tempo. Passou até ideia de, em vez de fazer um post, evoluir mais a ideia e transformar em contribuição e também a ideia de transformar em episódio de podcast. Acho que evolui muito durante esse tempo, para quem antes não entendia nem o porquê de uma troca de contexto ser lenta.

Motivação

Muitas vezes, nos deparamos com problemas que exigem o tratamento contínuo de várias tarefas, como tratar eventos de rede e manipular arquivos locais, por exemplo. Uma intuição ao encarar esse problema seria o uso de threads, já que há várias tarefas em “paralelo”. Entretanto, nem todos os trabalhos efetuados pelo computador são executados exclusivamente pela CPU.

Há outros componentes além da CPU, mas não programáveis e que não executam seu algoritmo, que costumam ser mais lentos e possuem outras tarefas, como transformar um sinal digital em analógico, por exemplo. Além disso, a comunicação com esses componentes ocorre de forma serial, através do ciclo buscar-decodificar-executar-checar-interrupção. Há uma simplificação nesse argumento, mas o fato é que você não lê dois arquivos em paralelo do mesmo HD. Em suma, usar threads não é uma abstração natural ao problema e só introduz gargalo desnecessário e complexo.

“Para quem só sabe usar martelo, tudo parece um prego.” — velho provérbio Klingon

Outro motivo para evitar o uso de threads como resposta ao problema é que logo você terá mais threads que CPUs/núcleos e irá se deparar com o que é conhecido como problema C10K. Mesmo que não fosse um gargalo absurdo, só o fato de você necessitar de mais threads que CPUs disponíves já torna o seu programa mais restrito, pois ele não mais poderá funcionar em um ambiente bare metal, sem a presença de um sistema operacional moderno ou um scheduler.

E o grande problema de desempenho que threads introduzem decorre do fato de elas exigirem uma troca de contexto com o kernel. É claro que esse não é o único problema, pois há também o custo de criação da thread. O programa estaria realizando a criação de threads, que podem acabar tendo um tempo de vida curto e, além disso, passarem a maior parte de seu tempo de vida dormindo. A própria criação da thread não é completamente escalável, pois requer a alocação de sua própria pilha, porém a memória é um recurso global e já aí temos um ponto de contenção.

O problema de desempenho de uma troca de contexto do sistema operacional lembra o problema de desempenho da convenção de chamada de funções usada por compiladores, mas pior.

Funções são unidades isoladas, encapsuladas, e de tal forma deveriam trabalhar. Ao realizar uma chamada de função, a função atual não tem conhecimento de quais registradores serão usados pela nova função. A função atual não detém a informação de quais registradores terão seus valores sobrescritos pela nova função. Assim, as convenções de chamadas de função exigem dois pontos de processamento extra, um para salvar os valores dos registradores na pilha, e outro para restaurar os valores. É por isso que alguns programadores são tão fissurados em fazer function inlining.

O problema de desempenho da troca de contexto é maior, porque ele deve salvar o valor de todos os registradores e ainda sofre com o gargalo do scheduler e da própria troca de contexto. E se processos estiverem envolvidos, então, ainda tem o gargalo de reconfigurar a unidade de gerenciamento de memória. Esse estilo de processamento multitarefa recebe o nome de multitarefa preemptivo. Você pode aprender mais sobre esses custos estudando arquitetura de computadores e sistemas operacionais.

É possível obter concorrência, que é a propriedade de executar várias tarefas no mesmo período de tempo, sem recorrer a paralelismo real. Para essas tarefas que estão mais atreladas a I/O, é interessante abandonarmos o paralelismo durante o tratamento de I/O para alcançarmos mais escalabilidade, evitando o problema do C10K. E já que um novo design se faz necessário, é bom levar em conta multitarefa cooperativo e obter um resultado até melhor do que o inicialmente planejado.

O loop de eventos

E uma abordagem para o problema de programação, que eu vejo sendo usada mais em jogos do que em qualquer outro lugar, é a abordagem de loop de eventos. Há essas peculiaridades de que em jogos você não manipula arquivos como se fosse um banco de dados, com ambiciosos requisitos de desempenho, e também de desenvolver o jogo para quando completar, não mudar o código nunca mais, sem qualquer compromisso com flexibilidade e manutenção. E é com essa abordagem, a abordagem do loop de eventos, que começamos.

Há uma biblioteca, a biblioteca de baixo nível SDL, que tem como objetivo ser apenas uma camada de abstração multimídia, para suprir o que já não é suprido pela própria especificação da linguagem C, focando no desenvolvedor de jogos. A SDL faz uso de um sistema de eventos para tratar da comunicação entre o processo e o mundo externo (teclado, mouse, janelas, …), que é comumente usada em algum loop que o programador prepara. Essa mesma estrutura é utilizada em vários outros locais, incluindo na Allegro, que foi o maior competidor da SDL, no passado.

A ideia é ter um conjunto de funções que faz a ponte da comunicação entre o processo e o mundo externo. No mundo SDL, eventos são descritos através do tipo não-extensível SDL_Event. Então você usa funções como a SDL_PollEvent para receber os eventos e funções dedicadas para iniciar operações que atuem no mundo externo. O suporte a programação assíncrona na biblioteca SDL é fraco, mas esse mesmo princípio de loop de eventos poderia ser usado em uma biblioteca que fornecesse um suporte mais forte a programação assíncrona. Abaixo você pode ver o exemplo de um código que faz uso de eventos da SDL:

Há as bibliotecas de interface gráfica e widgets, como a GTK+, a EFL e a Qt, que levam essa ideia um passo adiante, abstraindo o loop de eventos, antes escrito e reescrito por você, em um objeto. A Boost.Asio, que não é focada em interface gráficas, mas foca exclusivamente em operações assíncronas, possui uma classe de propósito similar, a classe io_service.

Para que você deixe de fazer o código boilerplate de rotear eventos a ações específicas, essas classes tratam essa parte para você, possivelmente através de callbacks, que é uma abstração antiga. A ideia é que você associe eventos a funções que podem estar interessadas em tratar tais eventos. Toda a lógica de rotear os eventos, agora, passa a fazer parte do objeto “loop de eventos”, em vez de um loop de eventos bruto. Esse estilo de programação assíncrona é um estilo do modelo passivo, pois você só registra os callbacks e cede o controle para a framework.

Agora que estamos em um nível de abstração superior ao do loop de eventos, vamos parar a discussão sobre loop de eventos. E esses objetos que estamos mencionando como objetos “loop de eventos”, serão mencionados, a partir de agora, como executors.

O executor

O executor é um objeto que pode executar unidades de trabalho encapsuladas. Utilizando somente C++11, podemos implementar um executor que gerencie o agendamento de operações relacionadas a espera de alguma duração de tempo. Há o recurso global RTC e, em vez de criar várias e várias threads para a execução de operações bloqueantes como a operação sleep_for, vamos usar um executor, que irá agendar e tratar todos os eventos de tempo que se façam necessário. Abaixo está o código para uma possível implementação de tal executor:

Esse código de exemplo me faz lembrar do sleepsort.

No exemplo, sem o uso de threads, foi possível realizar as várias tarefas concorrentes de espera de tempo. Para tal, ao objeto executor, foi dada a responsabilidade de compartilhar o recurso global RTC. Como a CPU é mais rápida que as tarefas requisitadas, uma única thread foi suficiente e, além disso, mesmo assim houve um período de tempo no qual o programa ficou ocioso.

Há alguns conceitos que já podem ser extraídos desse exemplo. Primeiro, vamos considerar que o executor seja uma abstração padrão, já fornecida de alguma forma e interoperável entre todos os códigos que façam uso de operações assíncronas. Quando o programa deseja fazer a operação assíncrona “esperar”, ele requisita o início da operação a alguma abstração (nesse caso é o próprio executor, mas é mais comum encontrar tais interações através de “objetos I/O”) através da função que inicia a operação. O controle é passado para o executor (através do método run), que continuamente verifica notificações de tarefas concluídas. Quando uma tarefa é concluída, o executor empresta o controle da thread para o código do usuário, executando a função que havia sido registrada para tratar a notificação de finalização da tarefa. Quando não há mais nenhuma tarefa na fila, o executor cede o controle da thread, por completo, para o código do usuário.

Como só existe uma thread de execução, mas várias tarefas a executar, nós temos o problema de compartilhamento de recursos, que nesse caso é a própria CPU/thread. O controle deveria ir e voltar entre alguma abstração e o código do usuário. E aí está o princípio do estilo multitarefa cooperativo. Há pontos de customização de comportamento entre os algoritmos responsáveis por executar as tarefas, fazendo com que eles cedam e emprestem o tempo da CPU para realização de outras tarefas.

O estilo de multitarefa cooperativo tem a vantagem de que os pontos de paradas são bem definidos, pois você sabe exatamente quando o controle passa de uma tarefa a outra. Então não há aquele grande gargalo que vimos com trocas de contextos, onde todos os registradores precisam ser salvos, entre outros. Uma solução mais elegante, eficiente e verde.

O objeto que passamos como último argumento da função add_sleep_for_callback é um callback, também conhecido como completion handler. Reflita sobre o que aconteceria se uma nova operação de espera fosse requisitada dentro de um dos callbacks que registramos. Abaixo há uma versão evoluída do executor que implementamos.

Esse detalhe de implementação me lembra a variável de SHELL SHLVL.

Um caso interessante é o da linguagem JavaScript, que possui um tipo de “executor implícito”, que passa a funcionar quando chega ao fim do seu código. Nesse caso, você não precisa escrever códigos como “while (true) executor.run_one()” ou “executor.run()“, mas apenas registrar os callbacks e se assegurar que não há nenhum loop infinito que impeça que o controle passe ao executor.

Introduzida a motivação, o texto passou a prosseguir reduzindo menções a I/O, por motivos de simplicidade e foco, mas tenha em mente que usamos operações assíncronas, majoritariamente, para realizar interações com o mundo externo. Então muitas das operações são agendadas condicionalmente em resposta a notificação de término de uma tarefa anterior (ex.: se protocolo inválido, feche o socket, do contrário, agende mais uma operação de leitura). Propostas como a N3785 e a N4046 definem executors também para gerenciar thread pools, não somente timeouts dentro de uma única thread. E por último, também é possível implementar executors que agendem a execução de operações de I/O dentro de uma mesma thread.

Algoritmos assíncronos descritos de forma síncrona

O problema com essa abordagem de callbacks é que antes, possuíamos código limpo e legível. O código podia ser lido sequencialmente, pois é isso que o código era, uma sequência de instruções. Entretanto, agora precisamos espalhar a lógica entre múltiplos e múltiplos callbacks. Agora você passa a ter blocos de código relacionados longe uns dos outros. Lambdas ajudam um pouco com o problema, mas não o suficiente. O problema é conhecido como callback/nesting hell e é similar ao problema do espaguete. Não sendo o bastante, o fluxo de execução do código se tornou controvertido pela própria natureza assíncrona das operações e construções como estruturas de condição e repetição e até mesmo código de tratamento de erro ficam representáveis de formas longe do ideal, obscuras e difíceis de ler.

Uma abstração de procedimentos muito importante para programação assíncrona é a corotina. Existe a abstração de procedimentos a qual nos referimos por função, que é uma implementação do conceito de subrotina. E temos a corotina, que é uma generalização do conceito de subrotina. A corotina possui duas operações a mais que a subrotina, sendo elas suspender e resumir.

Quando sua função é uma corotina (possível quando a linguagem dá suporte a corotinas), ela pode suspender antes de chegar ao final de sua execução, possivelmente devolvendo um valor durante essa ação de suspender. Um exemplo de onde corotinas são úteis é na implementação de uma suposta função geradora fibonacci e um programa que use essa função para imprimir os dez primeiros números dessa sequência infinita. O código Python abaixo demonstra uma implementação de tal exemplo, onde se percebe a elegância, legibilidade e reaproveitamento que o conceito de corotina permite quando temos o problema de multitarefa cooperativa:

Esse código aí me lembra das funções setjmp/longjmp.

Uma característica a qual se deve dar atenção caso você não esteja familiarizado com o conceito é que o valor das variáveis locais a função fibonacci foi preservado entre as várias “chamadas”. Mais precisamente, quando a função era resumida, ela possuía a mesma pilha de execução de quando foi suspensa. Essa é a uma implementação “completa” do conceito de corotina, uma corotina com pilha. Há também implementações de corotinas sem pilha de execução, onde somente o “número da linha de código” que estava executando é restaurado.

A proposta N4286 introduz uma nova palavra-chave, await, para identificar um ponto para suspender uma corotina. Fazendo uso de tal funcionalidade, é apresentado o seguinte exemplo, que elegantemente define um algoritmo assíncrono, descrito, na minha humilde opinião, de forma bastante síncrona, e fazendo uso das várias construções da linguagem para controle de fluxo de execução (estrutura de seleção, repetição…).

Corotinas resolvem o problema de complexidade que algoritmos assíncronos demandam. Entretanto, há várias propostas para implementação de corotinas e nenhuma delas foi padronizada ainda. Um caso interessante é o da biblioteca Asio, que, usando macros e um mecanismo similar ao Duff’s device, dá suporte a corotinas que não guardem uma pilha de execução. Dentre todo o trabalho que está sendo investido, o que eu espero que aconteça na comunidade de C++ é que a padronização siga o princípio de “você só paga pelo que usa” e que a especificação permita implementações bem performáticas.

Enquanto a padronização de corotinas não acontece e ficamos sem a solução a nível de linguagem, podemos optar por soluções a nível de biblioteca. Como C++ é uma linguagem que suporta abstrações de baixo nível, você consegue acesso a várias facilidades que podem ser usadas para implementar suporte a corotinas, tipo setjmp e longjmp e até mais coisas indo para o mundo não-portável fora da especificação. Uma biblioteca que parece bem promissora e que espero ver sendo incluída na Boost esse ano é a biblioteca Fiber, que imita a API de threads a qual estamos acostumados para fornecer “threads” agendadas cooperativamente, em espaço de usuário. A biblioteca usa o conceito de fibra, análogo ao conceito de thread, e em uma thread, você pode executar várias fibras. Tal biblioteca fornece a expressividade que precisamos para escrever algoritmos assíncronos de forma síncrona.

Outra solução enquanto você não pode esperar, é não usar corotinas, pois ainda será possível conseguir performance excelente através das técnicas comentadas ao longo do texto. O grande porém vai ser o fluxo embaralhado do código-fonte (ofuscação de código, para quê te quero?).

Completion tokens

E nesse período de tempo incerto quanto a que solução tornará-se o padrão para programação assíncrona na linguagem C++, a Boost.Asio, desde a versão 1.54, adotou um princípio interessante, de implementar uma solução extensível. Tal modelo extensível é muito bem documentado na proposta N4045 e aqui nessa seção há somente um resumo do que está contido em tal proposta.

A proposta é que, dado que o modelo de callbacks é confuso, ele seja evoluído para suportar outros modelos. Então, em vez da função receber como argumento um completion handler (o callback), ela deve receber um completion token, que é a solução de customização/extensibilidade proposta.

A proposta N4045 usa uma abordagem top-down, de primeiro mostrar como a proposta é usada, para depois mostrar como ela é implementada. Abaixo há um código de exemplo retirado da proposta:

No código de exemplo anterior, cada vez que a variável yield é passada a alguma operação assíncrona (ex.: open e read), a função é suspensa até que a operação seja concluída. Quando a operação é concluída, a função é resumida no ponto em que foi suspensa e a função que iniciou a operação assíncrona retorna o resultado da operação. A biblioteca Fiber, mencionada anteriormente, fornece um yield_context para o modelo extensível da Asio, o boost::fibers::asio::yield. Código assíncrono escrito de uma forma síncrona. Entretanto, um modelo extensível é adotado, pois não sabemos qual será o padrão para operações assíncronas, então não podemos forçar o uso da biblioteca Fiber goela abaixo.

Para tornar o modelo extensível, o tipo do retorno da função precisa ser deduzido (a partir do token) e o valor do retorno da função também precisa ser deduzido (também a partir do token). O tipo do retorno da função é deduzido a partir do tipo do token e o valor retornado é criado a partir do objeto token passado como argumento. E você ainda tem o handler, que deve ser chamado quando a operação for concluída. O handler também é extraído a partir do token. O modelo de completion tokens faz uso de type traits para extrair todas essas informações e, caso tais traits não sejam especializados, o comportamento padrão é tratar o token como um handler, tornando a abordagem retrocompatível com o modelo de callbacks.

Vários exemplos de token são dados no documento N4045:

  • use_future
  • boost::fibers::asio::use_future
  • boost::fibers::asio::yield
  • block

A abordagem de usar std::future tem impactos significativos na performance e não é uma abstração legal, como o próprio N4045 explica em suas seções iniciais, então vamos evitá-la. É até por isso que eu nem comentei sobre ela até então nesse texto.

Sinais e slots

Uma alternativa que foi proposta ao modelo de callbacks é a abordagem de “signals & slots”. Essa abordagem é implementada na libsigc++, na Boost, na Qt e em várias outras bibliotecas.

A proposta de usar sinais introduz esse conceito, de sinal, que é usado para notificar algum evento, mas abstrai o processo de entregar as notificações e registrar as funções que tratem o evento. O código que notifica os eventos só precisa se preocupar em emitir o sinal toda vez que o evento acontecer, pois o próprio sinal vai cuidar do conjunto de slots, que são as porções de código a serem executadas para tratar os eventos.

Essa abordagem costuma permitir um grande desacoplamento, em oposição a abordagem verbosa muito usada em Java. Um efeito interessante, também, a depender da implementação, é que você pode conectar um sinal a outro sinal, para evitar o trabalho de escrever você próprio o código que sincronize a emissão de um sinal a emissão de outro sinal. É possível também ter muitos sinais conectados a um único slot, assim como um único sinal conectado a múltiplos slots.

O sinal costuma ser associado a um objeto, e quando tal objeto é destruído, as conexões que haviam sido feitas também o são. Assim como também é possível ter slots como métodos de um objeto, que são desconectados de todos os sinais tão logo o objeto é destruído.

Como os sinais são abstrações independentes e operantes assim que se tornam expostos, é natural ser incentivado a remover o argumento de callback das funções que iniciam operações assíncronas, pois haveria duplicação de esforços. Se você for até mais longe e remover também a própria função que inicie a operação assíncrona, expondo ao usuário apenas os sinais para receber as notificações, sua framework deixará de seguir o modelo ativo para seguir o modelo passivo. Exemplos de tais modelos passivos é o socket da biblioteca Qt, que não possui uma função explícita para iniciar a operação de leitura, e a biblioteca POCO, que não possui uma função explícita para iniciar o recebimento de uma requisição HTTP.

Outro detalhe que temos no caso da ideia de sinais, é o controle de acesso. No caso da biblioteca Qt, sinais são implementados de uma forma que exige a cooperação de um pré-processador, o executor da própria Qt e a classe QObject. No caso da biblioteca Qt, a emissão de sinais segue as regras de controle de acesso de métodos protegidos em C++, onde todas as classes-filha podem realizar a emissão de sinais declaradas nas classes-pai. Enquanto a operação de conectar um sinal a outro sinal ou a um slot segue as mesmas regras de membros públicos, onde todo mundo pode realizar.

No caso das bibliotecas que implementam o conceito de sinais como um tipo, é comum ver um tipo sinal que englobe tanto a operação de emitir o sinal, quanto a operação de conectar o sinal a algum slot (diferente do que vemos na proposta de futures e promises, onde é possível ter um controle de acesso separado para as diferentes responsabilidades/operações/entidades).

A abordagem de sinais é legal, mas ela não resolve o problema de complexidade que é resolvido por corotinas. Eu descrevi essa abordagem com o intuito de facilitar a explicação sobre a diferença entre os modelos ativo e passivo.

Modelo ativo versus passivo

No modelo passivo, você não agenda o início das operações e, apesar de ser mais comum em frameworks de produtividade, há muitas perguntas que esse modelo não responde bem (isso é só uma opinião e não um fato), que acabam exigindo o projeto de bem mais abstrações para contornar o problema.

Fazendo um contraste rápido entre a biblioteca Qt e a Boost.Asio. Em ambas as bibliotecas, você possui classes para abstraírem o conceito de socket, mas, enquanto na Qt você trata o evento readyRead e usa o método readAll para receber o buffer com o conteúdo, na Boost.Asio você inicia a operação async_read_some e passa o buffer a ser utilizado como argumento. A Qt usa o modelo passivo e a Boost.Asio usa o modelo ativo.

O evento readyRead, da Qt, age independente do usuário e requer a alocação do buffer toda vez que ocorre. Como, então, você responde a perguntas como “como eu posso customizar o algoritmo de alocação do buffer?”, “como eu posso customizar a aplicação para fazer reaproveitamento de buffers?”, “como eu faço para usar um buffer pré-alocado na stack?” e outras. Como o modelo passivo não responde a perguntas como essa, você precisa inflar a abstração de socket com mais pontos de customização para que comportamentos como esses sejam possíveis. É uma explosão combinatória que acontece para cada abstração que lide com operações assíncronas. No modelo ativo, fica bem natural. Se há algum recurso que a operação que o programador está prestes a iniciar necessita, só precisa passar o recurso como argumento, pois no modelo ativo, o programador explicitamente inicia as operações. E não é só sobre customizar obtenção de recursos. Mais um exemplo de pergunta que o modelo passivo não responde bem é “como eu decido se vou ou não aceitar uma conexão (ou adiar para depois, durante cenários de sobrecarga do servidor)?”. É um grande poder para aplicações sérias que estão seriamente preocupadas com performance e necessitam de ajustes meticulosos.

Além da questão de performance e ajuste fino, o modelo passivo também é problemático para realizar depuração e testes, pois ele faz uma inversão de controle. Esse é um dos motivos pelos quais, até hoje, eu vejo frameworks e frameworks introduzindo race condition nos testes ao depender de timeout para garantir a “robustez” de suas implementações. Essa solução de timeout não resolve um problema que ocorre somente no modelo passivo, mas no modelo passivo, ele ocorre com muito mais frequência. No modelo ativo, seu callback pode ser chamado mesmo quando o erro acontece. No modelo passivo é tão problemático, que já vi eventos de erro serem declarados como notificações separadas, que podem ser facilmente ignoradas, característica indesejável quando você quer diminuir e evitar os bugs no seu código.

Graças ao modelo ativo, muito da biblioteca que estou desenvolvendo com o intuito de submeter a Boost foi simplificado.

O modelo passivo, no entanto, é ótimo para prototipações rápidas. Felizmente podemos implementar abstrações que introduzam o modelo passivo em termos do modelo ativo e ter o melhor (ou o pior, se você for um projetista de C#) dos dois mundos.

Referências bônus

Uns links aleatórios que também me ajudaram como referência ou podem servir de leitura aprofundada para quem quer mais:

Comentários bônus

Espero ter introduzido você, estimado leitor que não comenta, as principais práticas utilizadas no universo da programação assíncrona. E agora que você já está armado com uma visão geral da “área”, se jogar nesse mar da internet para buscar mais referências e cavar mais fundo é só o segundo passo.

Esses dois meses que não postei nada e fui perdendo acessos/visitantes… valeram a pena, pois estou bastante satisfeito com esse trabalho e esse blog é sobre minha satisfação pessoal, por isso que eu nem coloco propaganda.

Há alguns outros textos separados em minha pasta de rascunho com temas variando desde ideias originais até assuntos “manjados” que eu pretendo usar quando bater aquela preguiça de investir muito tempo para um post só.

Agora que eu finalmente discuti concorrência sem paralelismo nesse blog, eu devia atualizar meu notebook (ou corrigir meu desktop) para ter um hardware suficientemente bom e começar a estudar OpenCL para fazer uns posts sobre paralelismo massivo.

EDIT (2015/3/11):

  • Ressaltar sugestão de estudar arquitetura de computadores e sistemas operacionais na seção de motivação.
  • Menção sobre “executor implícito” que ocorre em JavaScript.
  • Adicionado exemplo de motivação não relacionado a buffers na discussão de modelo ativo versus modelo passivo.

Feijão por cima do arroz ou o inverso?

O arroz sempre é seco, enquanto o feijão costuma vir acompanhado de seu próprio molho (que inclusive é a razão de termos a receita do caldo de feijão). No prato, nunca colocamos o molho por baixo, por que deveria ser diferente quando misturamos feijão com arroz?

OFF-TOPIC

Nada nesse blog foi postado desde o início do ano, pois, mais uma vez, estou preparando posts longos, explicativos e que exigem um pouco mais de pesquisa que o normal.

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 16.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 6 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Suggestion: 8+1 languages worth learning

Introduction

Every now and then I have contact with a few programming languages and this is the subset that I believe it would give me a very close insight to the sum of the all languages that I’ve had contact with. Also, this subset is not only based on the choice of ideas that each language aggregate, but also on their usefulness and importance for the general programmer’s toolbox.

Regex

Just about the most awesome way to describe and manipulate words from regular languages. No matter if it’s used as communication purposes within some specification or if it’s used to crawl certain patterns within a large collection of texts. It’s useful even within the programming environment itself. And to contribute to its awesomeness, it’s one of the easiest and fastest things to learn. It’s useful even for non-programmers (think about that time when you want to rename all files from a folder to have better consistency).

You can visualize regex patterns using Regexper or any of its competitors.

MarkDown/CommonMark

Started as a simple tool to pretify common syntax used in text-based email. But now just about almost every major site visited by programmers (e.g. StackOverflow, Reddit, GitHub, Doxygen-generated ones) has some support for MarkDown. Or its recent attempt for a smart standardization to spread good common practices and inspire better interoperability among supporting tools.

You can think of MarkDown as a simple way to describe which parts of the text will be bold or will be the tittle for a subsection and so on. MarkDown is simple! MarkDown is simple enough to be accepted in non-programmer targeted products like blogging platforms (even WordPress) or discussion platforms.

C

A language that appeared in 1972 that is still interesting and it’s still important. Being the “portable Assembly”, operating system’s kernels are still written in C. Pieces of software dealing with low-level are still written in C. Embedded projects are still written in C.

C is not a popular language out of merits. C is just the right abstraction to forget about Assembly, but still have no overhead between your software and the machine. Compilers will do a fantastic job in no time for you.

C is an easy language to learn, adding just a few handful abstractions like subroutines and structures to learn. Of course, C is very low-level and you’re expected to face manual memory management (and memory leaks), bit by bit serialization, pointer to functions (no closures here), architecture and operating system differences and maybe things like varargs, setjmp and mmap. You should be able to understand the implications on performance some decision has. This insight is something C has been a great language at and will hardly be acquired learning another language.

Haskell

Haskell is one of the languages I learnt this year. It’s a typed purely functional language. It’s a great language. It has great concepts to decrease the total number of lines of code you should write (like list comprehensions and pattern matching), a clever syntax and some great concepts you could learn (higher-order functions, currying, lazy evaluation…).

Not all about Haskell was new to me, as I had already learn functional programming through Scheme some years ago, but Haskell does a much better job. I hate Lisp naming conventions (car for the head of the list, seriously) and excessive number of parentheses. You shouldn’t have to follow my path. You should be introduced to functional programming with Haskell.

Also, look at how elegant this QuickSort is:

Ruby

Ruby is another of these languages I learnt this year. It’s a purely object-oriented language. Some cleverness was invested around its syntax and I very much appreciate this. It’s a very dynamic language where every class is open and even things like attr_reader are methods.

Object-oriented programming is one of these must-have skills for a programmer and I think Ruby, being purely object-oriented, is a great language to learn this paradigm. Hide and encapsulate!

I choose to learn Ruby looking for a scripting language to empower a possible game engine that I might code. Ruby really impressed me. Ruby is so dynamic that even if I design a wrong class hierarchy or something, Ruby probably has a way to fix it. I don’t intend to design bad hierarchies, but I don’t know who will use my possible future game engine and this concern then becomes undeniably important.

JavaScript

One of the worst languages I’ve ever seen. But also one of the best languages I’ve ever seen (yep, out there you can find programming languages that would surprise you in the bad way). This language is not what I’d like to be the most popular, but it’s just enough to not be hated. Also, it runs on about every web browser, which is like… everywhere. Importance and interoperability. It’s like you really need to know JavaScript.

JavaScript is like the assembly for the web. You’ll find many tools that translate source code from some language into JavaScript just to enable execution within the browser. Once developed to the browser, JavaScript has grow since and now it’s popular even on the server-side. JavaScript also conquered the smart-side.

Not knowing anything about JavaScript is almost like not knowing how to read in the programming industry. It’s a terrible language full of bad decisions, but it’s the common denominator of the web development.

Learning JavaScript also may help to solidify concepts you should know like asynchronous APIs, JSON and some others.

XML/HTML

Responsible for most of the web traffic, this is a pretty important and simple language to understand how web documents are structured. If you think I’m overestimating web, it’s because it’s one of the greatest things we have. But XML is not only about web, it’s about interoperable documents and protocols and it is used as such. You can find XML in use within vector formats, formats for office applications and even chat protocols. I think learning the basics of XML is a big deal.

LaTeX

I personally think that the LaTeX tools aren’t among the most polished tools. Just look at the Makefile generated by Doxygen to see the run-until-no-more-differences-found loop to work around inconveniences in the LaTeX tools. Or just look at the terrible error messages. Also, the syntax isn’t surprisingly pleasant.

But when you want to focus on the content, forget about the accumulated little formatting details and produce beautiful scientific papers, a book with consistently in-between linked references or even just a few math formulas, LaTeX is probably what you should, at least, consider.

Bonus: bash

Capable to automate the most surprising tasks in a computer, if you are using an Unix variant system. You could automate builds, customize software startup sequences and manage your system. But if you’re using an Unix variant system, you already may be aware of that.

Notes

No Java, C++ or Python in this list. Maybe I’ll do a part 2 of this article containing languages with a lesser chance to be used like SQL, MongoDB, OpenGL, R, GStreamer or some Assembly. Actually, I think Java, C++ and Python have a better chance to be used than Haskell, but if you learn every language in this list, C++, Java and Python will be easy to catch up and the lines of code you write will be more elegant.

Análise de TAD e POO em Ruby

Recentemente acabei investindo um pouco de esforço para aprender e analisar o suporte que Ruby dá para tipos abstratos de dados e programação orientada a objetos devido a um trabalho que meu professor de paradigmas de linguagens de programação cobrou. Apesar de eu ser iniciante na linguagem e o documento resultante poder conter erros, acho que pode ser interessante para outras pessoas, então estou deixando tal documento sobre a linguagem Ruby aqui.

I don’t feel the will to trust on logic all the time

If the last two air-planes from company A crashed, it doesn’t mean that their next air-plane is going to trash. It’s not a logical consequence. It might be a statistics problem, but then I won’t trust the company for awhile anyway.

If the situation “who will you gonna save?” happens, then you don’t have a logical decision. I don’t use logic’s help on all my decisions.

Anyway, since I started computer science, I feel like I’ve seen less events where people use illogical arguments to take decisions.

“one ring to rule them all”

PHP case: one vision, two approaches

Till today, I didn’t read a post defending PHP. There are all these texts attacking the language. And I dislike most of these texts I’ve read. I don’t like the attacked PHP language either. But what I dislike above all is the excessive use of fallacies. How could we have a logical discussion if we keep using them?

I don’t mind if you share a personal experience that cannot be used to prove a statement. If we’re lucky, your experience might be fun to read or will teach us to avoid specific behaviour in specific circumstances that may apply in specific ages.

I don’t mind if you carefully expose facts that the creators want to hide from us to affect our level of trust to such creators, as long as you use evidences to sustain such facts. You aren’t trying to logically prove something, but you text is also useful.

I don’t even mind if you create a text completely relying on fallacies, but I mind a lot if someone use such text to justify a decision. These texts, to my experience, tend to be fun anyway.

So, there are the two following linked texts about PHP, and in one of two, the author demonstrate more PHP knowledge than the other. Which one deserves more of your trust/attention?

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